Editor Bringhenti

CAPÍTULO 38

Estudo de Caso 3: Empresarial

Manual Completo de Constelação Sistêmica à Luz da Bíblia

📖 Comprar o livro impresso na UICLAP

A Metalúrgica Santos (nome fictício para preservar a confidencialidade) era uma empresa familiar de médio porte fundada há mais de quatro décadas por João Santos, um homem de visão e determinação que, com poucos recursos iniciais, construiu um negócio respeitado no setor metalúrgico da região. Quando João faleceu repentinamente de um ataque cardíaco dez anos atrás, seu filho mais velho, Ricardo, assumiu a liderança da empresa, conforme o desejo expresso do fundador.

Nos primeiros anos sob o comando de Ricardo, a empresa manteve sua estabilidade, mas não conseguiu expandir conforme planejado. Nos últimos três anos, porém, a situação havia se deteriorado significativamente: a produtividade caía, funcionários-chave estavam deixando a empresa, conflitos internos se multiplicavam, e as finanças mostravam resultados cada vez mais preocupantes. O clima organizacional, antes marcado pelo espírito de família e colaboração, havia se transformado em um ambiente de tensão e desconfiança.

Ricardo, cristão comprometido e líder bem-intencionado, estava perplexo com a situação. Havia implementado sistemas modernos de gestão, contratado consultores renomados e até mesmo investido em programas de desenvolvimento de liderança, mas nada parecia reverter a espiral descendente. Foi quando um amigo sugeriu a abordagem da Constelação Organizacional, explicando como esta metodologia poderia revelar dinâmicas sistêmicas invisíveis que afetavam o desempenho da empresa.

Após uma entrevista detalhada onde foram coletadas informações sobre a história da empresa, sua estrutura atual e os principais desafios enfrentados, organizamos uma sessão de Constelação Organizacional com a participação de Ricardo e mais alguns membros da diretoria. O processo começou com uma breve oração, pedindo sabedoria e discernimento para todos os envolvidos.

Na configuração inicial, Ricardo escolheu representantes para elementos-chave do sistema organizacional: ele próprio como diretor, seu pai falecido (o fundador), os departamentos principais, os colaboradores como grupo, os clientes e a própria empresa como entidade. A disposição espacial revelou imediatamente algumas dinâmicas significativas: o representante de Ricardo posicionou-se distante do representante do pai fundador, como se evitasse olhar para ele. O representante da empresa, por sua vez, olhava constantemente para o fundador, não para o diretor atual.

Quando questionados sobre suas percepções, os representantes ofereceram insights reveladores. O representante de Ricardo expressou: "Sinto um peso enorme, como se estivesse tentando provar algo impossível de ser provado. Não me sinto no lugar certo." O representante do fundador compartilhou: "Não me sinto visto nem honrado. É como se quisessem me esquecer, apagar minha contribuição."

O representante da empresa disse algo particularmente significativo: "Estou confusa sobre a quem devo minha lealdade. Não sei para onde olhar." Os representantes dos colaboradores, por sua vez, expressaram: "Sentimos como se estivéssemos traindo alguém, não importa o que façamos. Há uma divisão invisível entre o antigo e o novo."

Estas percepções apontavam para um padrão sistêmico clássico em empresas familiares: a dificuldade de honrar adequadamente o legado do fundador enquanto se implementam mudanças necessárias. No caso da Metalúrgica Santos, havia um fator complicador adicional que emergiu durante a constelação: Ricardo revelou que havia uma certa amargura em relação ao pai, que tinha sido extremamente exigente e raramente expressava aprovação. Inconscientemente, ao assumir a direção, Ricardo estava tentando "provar" que podia fazer melhor que o pai, o que o levava a implementar mudanças sem honrar adequadamente o legado anterior.

À medida que a constelação se desenvolvia, outra dinâmica crítica veio à tona: o irmão mais novo de Ricardo, Paulo, embora não trabalhasse oficialmente na empresa, exercia uma influência significativa nos bastidores, especialmente entre os funcionários mais antigos que o viam como mais semelhante ao pai em estilo de liderança. Quando um representante para Paulo foi adicionado ao campo, ficou evidente que havia uma disputa não declarada de lealdade na organização.

Guiados pelos movimentos que emergiam naturalmente e pelas percepções dos representantes, facilitamos uma reorganização sistêmica em várias etapas. Primeiro, o representante de Ricardo foi convidado a posicionar-se ao lado do representante de seu pai, olhando na mesma direção – simbolizando continuidade, não ruptura. Foi guiado a dizer: "Pai, eu te honro como fundador desta empresa. Reconheço tudo o que construiu e o valor do seu legado. Agora continuo a partir do que você começou, acrescentando minha própria contribuição."

Este movimento refletia o princípio bíblico expresso em Provérbios 22:28: "Não remova os antigos marcos que seus antepassados estabeleceram." Ao honrar o fundador e reconhecer sua posição primordial, Ricardo abria espaço para sua própria liderança autêntica, não como uma reação contra o passado, mas como uma evolução natural dele.

Em seguida, o representante de Paulo foi posicionado ao lado de Ricardo, e ambos foram guiados a reconhecer o lugar um do outro: "Somos filhos do mesmo pai, cada um com seus dons. Trabalhamos juntos pelo bem da empresa que nosso pai fundou." Esta reconciliação simbólica entre os irmãos refletia o ensino de Paulo em Romanos 12:10: "Amem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios."

Os representantes dos departamentos e colaboradores foram então reposicionados em um semicírculo que incluía tanto o fundador (honrado como origem) quanto a liderança atual (reconhecida como autoridade presente). O representante da empresa foi colocado no centro deste semicírculo, recebendo tanto a história quanto o futuro.

Um momento particularmente poderoso ocorreu quando Ricardo foi convidado a substituir seu representante e experimentar esta nova configuração. Visivelmente emocionado, compartilhou: "Pela primeira vez desde que assumi a direção, sinto que não preciso carregar tudo sozinho. Posso honrar meu pai sem tentar ser como ele. Posso ser eu mesmo e ainda assim honrar seu legado."

Nos meses seguintes, Ricardo implementou diversas ações inspiradas pelas revelações da constelação. Organizou uma cerimônia formal em memória do fundador, onde sua contribuição foi publicamente reconhecida e celebrada. Uma fotografia de João Santos foi colocada em posição de honra na recepção, acompanhada de um breve histórico da fundação da empresa. Ricardo também convidou seu irmão Paulo para assumir uma posição oficial no conselho consultivo, reconhecendo seus talentos e oferecendo um canal legítimo para sua influência.

No nível operacional, Ricardo reviu algumas das mudanças que havia implementado, identificando quais realmente agregavam valor e quais haviam sido motivadas mais por sua necessidade inconsciente de diferenciação. Processos tradicionais que funcionavam bem foram reintegrados, enquanto inovações necessárias foram implementadas com mais cuidado e comunicação.

Seis meses após a constelação, os resultados eram visíveis: a rotatividade de funcionários havia diminuído significativamente, o clima organizacional mostrava sinais claros de melhoria, e os indicadores financeiros começavam a se estabilizar. Ricardo relatou que se sentia mais seguro em sua posição de liderança, não mais competindo com o fantasma de seu pai, mas construindo a partir do fundamento sólido que havia recebido.

Um ano depois, a Metalúrgica Santos havia retomado sua trajetória de crescimento, agora com uma identidade que integrava harmoniosamente sua história honrosa e sua visão renovada de futuro. Como expressou Ricardo: "Descobri que não precisava escolher entre honrar o passado ou abraçar o futuro. Quando honramos verdadeiramente nossas raízes, ganhamos a liberdade para crescer em novas direções."

Este caso exemplifica como a Constelação Organizacional pode revelar dinâmicas sistêmicas invisíveis que afetam profundamente o desempenho empresarial. Ao trazer à luz questões de lealdade, reconhecimento e ordem, e facilitar uma reorganização baseada em princípios de honra e verdade, abrem-se caminhos para uma liderança mais autêntica e eficaz, fundamentada não na reação ao passado, mas na integração saudável entre herança e inovação.