Existe uma tensão na experiência de muitos cristãos – a tensão entre o que a Bíblia declara que somos em Cristo e o que ainda experimentamos em nossa luta diária. Esta tensão gera uma pergunta que ecoa no coração de muitos: “Sou ainda pecador ou já sou santo em Cristo?” Esta não é uma questão meramente teológica, mas profundamente pessoal e prática, pois a maneira como respondemos a ela afeta radicalmente como vivemos nossa fé.
O testemunho das Escrituras sobre nossa identidade em Cristo é impressionantemente claro e transformador. Paulo declara em 2 Coríntios 5:17: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” Observe o tempo verbal – não “será” nova criação ou “está se tornando” nova criação, mas “é” nova criação. O tempo presente indica uma realidade já estabelecida.
Em Romanos 6:6, o apóstolo vai ainda mais longe: “Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado.” Novamente, note o tempo passado: “foi crucificado”. Não é algo que precisamos fazer acontecer através de nossos esforços, mas uma realidade já consumada através da nossa união com Cristo na cruz.
A ciência moderna da neuroplasticidade oferece uma ilustração fascinante para essa verdade bíblica. Pesquisas demonstram que nosso cérebro é capaz de reorganizar suas conexões neurais através de novas experiências e padrões de pensamento. Da mesma forma, nossa identidade espiritual foi fundamentalmente transformada em Cristo, mesmo que ainda estejamos no processo de reorganizar nossos padrões de pensamento, emoção e comportamento para alinhar-se com essa nova realidade.
Sua identidade não é definida pelo que você faz, mas por quem você é em Cristo. Seus pecados são ações que contradizem sua verdadeira identidade, não a expressão dela. Em Cristo, você não é um pecador tentando se tornar santo; você é um santo aprendendo a viver de acordo com a santidade que já lhe foi concedida.
Esta compreensão revoluciona nossa abordagem da santificação. Em vez de nos esforçarmos para nos tornar algo que ainda não somos, somos chamados a crescer na compreensão e expressão do que já somos em Cristo. Como Paulo exorta em Efésios 4:22-24: “quanto ao procedimento anterior, desfaçam-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, e sejam renovados no modo de pensar e revistam-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade.”
A santificação, portanto, não é a tentativa de melhorar a velha natureza ou de alcançar gradualmente uma nova identidade. É o processo pelo qual, através da renovação da nossa mente, começamos a viver de acordo com a nova criação que já somos em Cristo. É aprender a “vestir” consistentemente quem já somos, em vez de nos esforçarmos para nos tornar algo que ainda não somos.
Metáfora guiada - A Metamorfose Espiritual
Feche os olhos por um momento e permita que sua mente viaje para um jardim tranquilo. Neste jardim, você observa um espetáculo extraordinário da natureza: o processo de metamorfose de uma borboleta. No início, você vê uma pequena lagarta – limitada ao solo, movendo-se lentamente, confinada a uma existência rastejante. Esta lagarta representa nossa antiga identidade, nossa vida antes do encontro transformador com Cristo.
Observe agora como a lagarta começa a tecer ao redor de si mesma um casulo. Este é um momento crítico – um tempo de aparente inatividade exterior, mas de intensa transformação interior. O casulo simboliza o momento da nossa rendição a Cristo, quando morremos para nossa antiga natureza e permitimos que o processo divino de renovação comece em nós.
No mundo natural, o que acontece dentro do casulo é nada menos que milagroso. A lagarta não apenas muda sua aparência – ela passa por uma transformação completa no nível celular. Praticamente todo o seu corpo antigo se dissolve e é reconfigurado. Novos órgãos, novos sistemas, nova forma – tudo emerge de um processo que parece morte, mas que na verdade é o prelúdio da vida em sua expressão mais elevada.
De maneira semelhante, quando nos rendemos a Cristo, não estamos simplesmente adotando um novo conjunto de comportamentos ou crenças. Estamos passando por uma transformação ontológica – uma mudança no nosso próprio ser. Como Paulo declara em Gálatas 2:20: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”
Agora, volte sua atenção para o casulo no jardim. Após um tempo de aparente dormência, algo extraordinário começa a acontecer. O casulo se agita. Uma pequena abertura aparece. E então, com esforço persistente, emerge não mais uma lagarta, mas uma borboleta magnífica – com asas coloridas que capturam e refletem a luz do sol, capaz agora de voar, de transcender as limitações da sua existência anterior. Esta é a imagem da sua nova identidade em Cristo. Não uma versão melhorada da lagarta, não uma lagarta com asas, mas um ser completamente novo. As limitações da antiga natureza não definem mais suas possibilidades. O que era impossível para a lagarta – voar, nutrir-se do néctar das flores, migrar por longas distâncias – torna-se o modo natural de existência para a borboleta.
É importante notar que a borboleta recém-emergida precisa de tempo para que suas asas se fortaleçam antes de poder voar plenamente. De modo semelhante, nossa nova identidade em Cristo é instantânea, mas a manifestação plena dessa identidade na nossa experiência diária é um processo. Este é o paradoxo da “já e ainda não” da vida cristã – já somos novas criaturas, mas ainda estamos aprendendo a viver como tais.
A metamorfose é irreversível. A borboleta nunca voltará a ser lagarta, mesmo que às vezes possa se comportar como se ainda estivesse presa ao solo. Da mesma forma, sua transformação em Cristo é definitiva. Suas lutas e falhas ocasionais não anulam sua nova identidade; elas simplesmente revelam áreas onde você ainda está aprendendo a viver de acordo com quem realmente é.
Vivendo Como Nova Criatura
Como seria sua vida se você realmente acreditasse, com cada fibra do seu ser, que é uma nova criação em Cristo? Se cada decisão, cada reação, cada pensamento fosse informado não pela memória do seu passado, mas pela revelação da sua nova identidade? Esta não é uma questão hipotética, mas um convite para adentrar a realidade que já é sua por direito divino.
O apóstolo Paulo, escrevendo aos colossenses, oferece uma instrução profunda: “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:1-3). Observe a lógica inspirada destas palavras. Paulo não diz: “Busquem as coisas do alto para que possam morrer para o pecado”. Ele inverte a equação: “Porque vocês morreram... busquem as coisas do alto”. A nova identidade não é o resultado do comportamento correto; o comportamento correto flui naturalmente da compreensão e aceitação da nova identidade.
Viver como nova criatura não significa alcançar a perfeição moral instantânea. Significa engajar-se em um processo contínuo que podemos chamar de “vivendo a partir de quem você já é em Cristo”. Este processo envolve três elementos essenciais:
Renovação da Mente
Romanos 12:2 nos exorta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Isto significa questionar constantemente os velhos padrões de pensamento à luz da verdade de Deus, substituindo as mentiras internalizadas pelas declarações divinas sobre nossa identidade.
Apropriação pela Fé
A fé não é apenas acreditar intelectualmente na nova identidade, mas agir baseado nesta realidade, mesmo quando os sentimentos ou circunstâncias parecem contradizê-la. É “andar pela fé, e não pelo que vemos” (2 Coríntios 5:7).
Prática Consistente
Em Filipenses 2:12-13, Paulo nos instrui a “desenvolver a nossa salvação”, reconhecendo que “Deus é quem opera em vós tanto o querer como o realizar”. A nova criatura se manifesta através de decisões conscientes e intencionais de viver de acordo com nossa verdadeira identidade.
Este processo pode ser ilustrado com uma analogia. Imagine um jovem mendigo nas ruas que, sem seu conhecimento, é filho legítimo de um rei. Um dia, representantes do palácio o encontram e revelam sua verdadeira identidade. Documentos são apresentados, testes de DNA confirmam, e ele é oficialmente reconhecido como príncipe do reino. Legalmente, instantaneamente, ele é transformado de mendigo em príncipe. Sua identidade mudou num momento. No entanto, ele ainda precisa aprender a viver como um príncipe. Os hábitos desenvolvidos durante anos nas ruas não desaparecem automaticamente. Ele precisa aprender a nova linguagem do palácio, os protocolos reais, a maneira de se portar com dignidade real.
De modo semelhante, você é instantaneamente uma nova criação em Cristo, mas aprender a viver de acordo com esta nova identidade é um processo. Contudo, é um processo fundamentado em uma realidade já estabelecida – você não está tentando se tornar algo que ainda não é; você está aprendendo a expressar o que já é em Cristo.
Como Paulo declara: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós” (Romanos 8:9). Note o tempo presente – “não estais” – indicando uma realidade atual, não uma meta futura. Viver como nova criatura é permitir que esta verdade molde cada aspecto da sua existência.
Declaração do Novo Eu
Existem momentos na jornada espiritual que servem como marcos, pontos de virada conscientes onde declaramos em voz alta quem realmente somos em Cristo. Este é um desses momentos. A declaração que você está prestes a fazer não é uma tentativa de criar uma nova realidade através de palavras positivas, mas uma proclamação da verdade que já existe – a verdade sobre sua identidade transformada em Cristo.
As palavras têm poder. Jesus usou palavras para acalmar tempestades, curar enfermos e ressuscitar mortos. O apóstolo Tiago compara a língua a um pequeno leme que direciona grandes navios (Tiago 3:4). Quando declaramos verdades bíblicas sobre nossa identidade, estamos essencialmente direcionando o curso da nossa vida, alinhando-o com a realidade espiritual que Deus já estabeleceu.
Encontre um lugar onde você possa estar sozinho com Deus. Pode ser útil ficar em pé, numa postura de autoridade espiritual. Você pode colocar a mão sobre seu coração, simbolizando que estas palavras não são apenas declarações externas, mas verdades que estão sendo impressas no centro do seu ser. Respire profundamente algumas vezes, centrando-se na presença de Deus.
Agora, leia a seguinte declaração em voz alta, devagar, permitindo que cada frase ressoe profundamente em seu espírito:
Eu sou uma nova criação em Cristo Jesus. As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Fui crucificado com Cristo; já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. Minha identidade não é mais definida pelo meu passado, meus fracassos ou minhas limitações. Minha identidade está firmemente ancorada em quem sou em Cristo. Sou filho amado de Deus, adotado em Sua família eterna. Sou santo e irrepreensível diante dEle. Sou templo do Espírito Santo. Sou embaixador de Cristo, portador da mensagem da reconciliação. O pecado não tem mais domínio sobre mim, pois não estou debaixo da lei, mas debaixo da graça. Minha velha natureza foi crucificada com Cristo para que o corpo do pecado seja destruído. Fui libertado do poder das trevas e transportado para o Reino do Filho amado de Deus. Não sou definido pelo pecado, mas pela graça. Não sou identificado pelos meus erros, mas pela justiça de Cristo. Não sou caracterizado pelas minhas lutas, mas pela vitória que já me foi concedida em Cristo. Esta é minha verdadeira identidade. Esta é minha realidade em Cristo.
Ao fazer esta declaração, você não está tentando convencer Deus de algo ou obrigando-se a sentir de determinada maneira. Você está simplesmente proclamando a verdade que a Palavra de Deus já estabelece sobre quem você é em Cristo. Esta declaração serve como um lembrete poderoso para sua própria alma e um testemunho no reino espiritual.
Considere escrever esta declaração em um cartão ou no celular e lê-la diariamente durante as próximas semanas. Faça disso um ritual matinal, um alicerce para seu dia. Com o tempo, estas verdades migrarão da sua mente consciente para o seu subconsciente, transformando não apenas o que você pensa sobre si mesmo, mas como você se sente, como reage e como vive.
Como nos lembra Provérbios 23:7, “Porque, como imagina em sua alma, assim ele é”. Quando você consistentemente se vê como Deus o vê – como uma nova criação em Cristo – essa percepção transformada começa a manifestar-se na sua experiência diária.